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Trabalhadores do mundo, uni-vos! Não trabalhem!!!

  

                            Hoje tirei férias de mim. Aquele eu trabalhador foi substituído pelo outro, aquel’outro, que se diverte e ri. Tirei hoje férias de mim e para mim, para que na solidão, quem sabe, viesse a reencontrar-me comigo mesmo, já que não me reconheço no espelho do tempo. Estou talhado e sofrido  pela geografia dos anos... com rugas demarcatórias do cansaço em meu rosto. E que desgosto. "O mesmo pão adormecido e duro, o mesmo café borrento, de munição insatisfatória para mais um dia de trabalho”, penso. E afugento o pensamento malsão. Rosto? Que rosto? Que desgosto, não é gosto; é cara, minha cara sofrida, cara, minha cara vida!


                         Como milhões de brasileiros, me empresto folga nesse 1º de maio. Aposento-me por uns dias. Ócio e deleite na ilusão da fugacidade aproveitada, sem pensar no amanhã. Tento, assim, desembrutecer o trabalhador empedernido que habita em mim, curtido pelas máquinas das fábricas do cotidiano, especializadas em moer gente. Nesse 1º de maio o brasileiro médio não trabalha. O trabalhador não trabalha. Cruza simbolicamente os braços em greve a seu sofrimento diário, dando paz a um corpo fatigado. Seu dia a dia? Um mantra irônico, como quando lhe perguntam: “Trabalhando muito?”. “Sim, estou me matando de trabalhar...para ganhar a vida”!


                         Nesse 1º de maio quero revigorar-me de forças, em merecido descanso. Viajar física e espiritualmente para onde a mente não se ocupe e o corpo se assossegue.


                         Nesse 1º de maio, um grito mudo de viva a todos os trabalhadores sujos das minas de carvão. A todos empoeirados garis de nossas ruas. A toda mulher trabalhadora e professora. A todo bancário. Comerciário. A todo chefe de família. A toda chefa de família. A todos aqueles que constroem os amanhãs, que plantam árvores que nos dão sombras, que plantam a comida pras nossas bocas.


                         Nesse 1º de maio, feriado para quase todos. Mas, há quem inverta o sentido lógico-afetivo da vida. Há quem nunca trabalhe, mas, nesse dia... “trabalha”. Quando dormimos a noite, e, descansamos, eles “trabalham”. Pior, por vezes nos despertam de nosso repouso. Foi em Diadema. Atendi um, uma vez. Um operário de fábrica e com uma fábrica de filhos. Pobre como essa crônica de autor sem talento. “Doutor, tinha trabalhado o dia inteiro...é judiação, doutor”. Chorou na minha frente. “Tava dormindo na minha casa...de madrugada... os ladrões entraram, deram uma coronhada na minha cabeça e falaram: “levanta vagabundo!...E eu que sou vagabundo, doutor?”
(Singela homenagem do autor, a todos aqueles que no Brasil, por ação, omissão, dolo ou culpa, colocam ladrões nas ruas)

                                    EDILSON MOUGENOT BONFIM, vésperas do 1º de maio de 2012