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Pequena Reflexão


PEQUENA REFLEXÃO

 


Perguntei-me se a postura adotada pela Ministra Eliana Calmon, que ora deixa a Corregedoria Geral do CNJ estaria correta, porquanto alguns de seus detratores aduziram-lhe a falta de serenidade no exercício da função. 

 

Lembro-me sim, de algumas e polêmicas entrevistas ou manifestações de sua lavra. Davam em bastante no que dizer e mais ainda no que pensar. Assim, inquestionavelmente, seria a mais fácil e oportuna das críticas, vez que a mesma notabilizou-se por expor alguns dos males da justiça, externalizando ao público, com a autoridade de quem detinha tão importante função, algo até então inaudito. Age-se assim, como o caricaturista contratado para o exercício público da ridicularia: toma o mesmo do pincel ou da caneta e passa a hipertrofiar alguma das características do retratado, fazendo-lhe maior a linha do queixo, ou tornando o nariz incrível e hiperbolicamente aumentado.


É no exagero das proporções, que daí, consistiria uma inveracidade, uma mentira, disfarçado com a matriz da própria verdade, esta remanescente sem a lente do aumento. Destarte, faltando aparelho capaz de medir o quanto possa ou deva ir a Corregedora na publicização de seu ofício e críticas, colhe-se uma sua característica, dá-se-lhe fermento argumentativo e, deitando um rio amazônico de tinta crítica, tenta-se com isso fazer o exagero fixar-lhe como máscara, a tal ponto que, tentado subtrair um o outro vem por acréscimo, como se a própria pessoa viesse junto às exageradas tintas do acréscimo das proporções.


Obedecida a técnica, nada desprezível, já não se sabe onde está o aumento, o exagero, e onde repousa a verdade, a natureza mesma da pessoa caricaturada. Aduzia-se em seu desfavor que revelava, ou pior, inventava problemas nos escaninhos da justiça e problemas intestinos ao judiciário, expondo-se-lhes abusivamente em público.


Bem, sempre sustentaram aqueles que lhe socorriam, que não deveria remanescer segredos, por pouco perfume contivessem, que devessem ficar escondidos, não desvelados, porquanto interessam ao central conceito de democracia, em homenagem ao princípio da aparência.


Por fim, feita a leitura dos prós e contras, muito singela e sinteticamente acorreu-me uma imagem simbólica, nada mais que simbólica e característica desta senhora: a mesma tem coragem! Rara coragem! Postura que falta a tantos homens, do judiciário, da justiça ou não. Em épocas de "homens lights" (sem grandes verdades, sem grandes bandeiras), em épocas que ninguém mais quer se comprometer com conceitos fortes e pesados como ética e seriedade ela ousou fixá-los quando todos fingiam já não mais existir. Cobrou de homens e mulheres coragem cívica, e provocou uma movimentação no judiciário brasileiro até então inexistente. As águas calmas do lago judicante foram agitadas por seu olhar severo, mas, pretendidamente imparcial. Movimentou-se a base do poder, a segunda Instância preocupou-se, e em meio a essa agitação, sem que a nau naufragasse, não se teve notícia de um só ato injusto de sua parte.


Ao final, nesse texto "currente calamo", sem floreios ou releituras, uma certeza do autor: não se pode ser Corregedor no Brasil, neste momento, como em um cândido, conspícuo e fleumático "Corregedor Inglês". É preciso alguém que agite as águas, como ela própria o agitou. Agitar com responsabilidade, como parece ter feito. Se um pouco de pimenta houve, deve-se a sua Bahia, que sendo berço do Brasil, é nossa própria história, e por isso sabe-se que o tempero picante da receita é para afirmar que não existe alimento cultural insosso, para acicatar o teatro morno em que vivíamos. Agradece assim à Ministra Calmon a cidadania brasileira pela coragem desinteressada em ocupar esse cargo, ora vacante. É que será difícil alguém ocupá-lo doravante com justeza a ponto de merecer tamanho destaque na consciência pública da nação.


Será mesmo difícil alguém ser caricaturado: é que não despontam traços para serem avantajados, já que estamos de tal forma concebidos em "manequins plásticos" que não se deixou espaço sequer à humana ridicularia. Boa sorte ao novo Corregedor. Ficou um modelo, que se por outra razão não fosse, um modelo de coragem. Essa pimenta tão forte que aos fracos abatem e aos fortes cabe temperar.

 

Edilson Mougenot Bonfim, texto publicado no dia 05 de setembro de 2012.