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Um homem chamado EVANDRO

[1]

(Estudo da história e da geografia do Brasil

nesta centúria: idéia síntese, vida maiúscula, palavras cruzadas)


                                     O verbo “homenagear” é de conteúdo prático impreciso, como de regra os verbos o são, porque definem uma ação, mas não dizem o modo de atingí-la. É conjugado, no caso em tela, brasileiramente, em todos os tempos, e em todas as pessoas, mas na primeira pessoa, do plural, no tempo presente, “nós homenageamos” é mais oportuno, mais certeiro, por isso mais verdadeiro, mais justo. É mais. Mais, como o homenageado que não pára a crescer.

                                     Como homenagear um grande homem, que iniciou como “foca”, repórter dos assuntos do foro criminal no Rio de Janeiro, estreando depois aos 19 anos na tribuna do Júri, levado pelas mãos do genial rábula João da Costa Pinto, e enfrentando logo, no primeiro embate, ninguém menos que Roberto Lyra? Como homenagear o notável advogado dos presos políticos, sempre intransigente com os postulados indeclináveis da democracia?! Como reverenciar o professor que ministrou aulas na cátedra de “História do Direito Penal e Ciência Penitenciária” no doutorado da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, que é o presidente do Grupo Brasileiro da Associação Internacional de Direito Penal, que foi Procurador Geral da República na década de 60 e foi Ministro das relações Exteriores no Governo de João Goulart, chefe do Gabinete Civil da Presidência da República no ano de 1963 e, posteriormente, no mesmo ano, guindado a Ministro do Supremo Tribunal Federal onde permaneceu até 1969?! Este que ainda hoje é o consultor-em-chefe das comissões que se empenham em reformar a legislação penal, referência jurídico-moral sempre consultada...

                                     ...O homem que fez da tribuna do júri - a sua “tribuna encantada”[2]!- a sua vida, do direito sua vocação, e do respeito aos valores humanos seu mais rico predicado de fé?

                                     Homem que vem de uma plêiade de notáveis criminalistas, que iniciou com ROMEIRO NETO, que conviveu com grandes advogados como EVARISTO DE MORAIS, JORGE SEVERIANO, BULHÕES PEDREIRA, GALVÃO BUENO, MÁRIO GAMEIRO, ALFREDO TRANJAN, CARLOS DE ARAÚJO LIMA. Que privou com eminentes promotores, como GOMES DE PAIVA, ROBERTO LYRA, CARLOS SUSSEKIND DE MENDONÇA, PIMENTEL DO MONTE, FRANCISCO DE PAULA BALDESSARINI, RUFINO DE LOY, CORDEIRO GUERRA e muitos outros, promotores que, em seu dizer “esgrimiam o seu florete com um chumaço de algodão na ponta, não machucavam o adverário...a discussão podia ser veemente, mas as farpas eram lançadas com graça e sem veneno”[3].

                                     Que privou da intimidade de um Juiz do porte de MAGARINOS TORRES a um Ministro da estatura de NÉLSON HUNGRIA, deste que, como aludiu, era “um homem que não se enternecia com louvaminhas nem se entibiava com ameaças”[4]?

                                     Se é difícil homenagear este mortal de variadas virturdes, a tarefa torna-se inglória na saudação a um imortal, sim, porque a espada e as loas de imortal foram entregues à EVANDRO, quando em uma bela noite de 11 de agosto último, quando se comemorava a criação dos cursos jurídicos no Brasil, com pompa e circunstância, o advogado EVANDRO, assumia a cadeira nº 1 da Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro.

                                     § §                          

                                     Mas, este homem de talento e glória é quase um asceta, um peregrino que busca e cultua as virtudes morais. Dentre estas, o imortal que hoje é um mito na galeria dos grandes brasileiros, há de deixar de seu coração generoso escapar uma réstia a mais de sua pródiga bondade, para compreender o inalcançável sentido do elogio que as palavras não conseguem atingir. Ele que tão sabiamente sabe manejá-las, as palavras, as palavras que abrem caminhos, e que não devem fechar corações.

                                     Mas, quando EVANDRO diz que a vida, para ele, ‘é uma sucessão de acasos felizes’, temos que parar à meditar. Que sapiência de um destino que construiu: ‘uma sucessão de acasos felizes’! E quando se escolhe, dentre promotores, a figura de um homenageado nacional, símbolo vivo do próprio promotor do júri, este há que ter estirpe, formação e história, conquanto somos mesmo todos muito exigentes. E quando homenageamos alguém que provêm justamente das hostes adversárias, do quadro de nossos opositores históricos, os advogados, devemos bem justificar, para melhor compreender.

                                     Não que nosso homenageado não tenha feito uma grande acusação. Ao contrário, fez. Confira-se o grande discurso que pronunciou ao lado do Parquet, sustentando na assistência da acusação um libelo contra Paulo Ribeiro Peixoto, policial truculento, que matou a socos e pontapés o repórter Nestor Moreira, sendo julgado em 26/07/56[5]. Mais do promotor Evandro? Nosso homenageado acusou, mesmo, um ex-Presidente da República, quando do impeachment, razão pela qual, somente por esse episódio, representa o promotor simbólico, o Ministério Público Nacional. Então, se teve e tem muito de advogado, também tem bastante de promotor, quando estes buscam não o sentido pobre da palavra ‘vitória’, mas o alto, o cume, o cimo moral, da palavra ‘justiça’... tanto que Fábio Konder Komparato referindo-se a ele afirma ser “O Ministério Público na advocacia, porque advogou aos seus clientes com uma visão social, abrangente”[6].

                                     § §

                                     E de que forma saudá-lo? Em prosa, em verso, em prosa e verso? Talvez, com um pouco de tudo, porquanto este é o símbolo máximo do jurista com formação multifária, onde temperou o peso da toga, do verbo jurídico, mergulhando as vestes de Thêmis no lago das musas, fazendo do direito, quantas vezes intragável pelos dogmatas puros, algo palatável, até mesmo perfumado ou adocicado, porque medeado com rimas de um talento, e uma métrica de uma poesia só buscada às grandes almas. Mesclou, pois, o jurista de proa, por entre os Códigos e a doutrina, um pouco da candura da poesia, do discorrer literário, e calmamente, fez o direito ter vida, petrificado que estava na gélida letra da lei. E viu até, com os seus olhos do amanhã, viu até o belo do verde esperança, onde se via somente o feio do crime.

                                     E o homem que até no feio via o belo, o que não veria no beleza do amor? Ele que mergulhara sua toga no lago das musas, nadou braçadas puras de amor nos braços de sua Musa. MUSA KONDER LINS E SILVA, com quem casou-se em 1941, e com quem teve quatro filhos: Carlos Eduardo, Patrícia, Cristiano e Ana Teresa.

                                     § §

                                     Mas como homenagear Evandro, senão brindá-lo com palavras. Palavras que, insisto, ele sempre soube manejá-las tão bem. É que vem de uma época de escol, onde a cultura estava na moda, até as letras eram em duplicatas -diz ter vindo de um tempo em que “apelação” se escrevia com dois “ps” e dois “ll”[7], farmácia era com “ph”, do grego “pharmakon”, onde se descobria na vida, o remédio e a cura, em uma “atmosphera” com “ph” puro, o mesmo da “philosophia” e do clarão advindo dos “phósphoros” do saber.

                                      Mas era uma época-épica,

                                      sem apelações,

                                      onde as vogais se duplicavam,

                                      onde o ‘W” era o “doublet-v”,

                                      menos o caráter era dúplice;

                                      Era caráter, ou não era.

                                      Não tínhamos, mesmo, clones, éramos todos, desclonados ou inclonáveis!

                                      ...Sem saudosismos, porque este é um homem de futuro; mas, no seu francês castiço e cultuado, deve-se colher e espelhar um exemplo:

                                      “CAR C’EST DANS LE PASSÉ QUE TU TROUVES LE SENS DU FUTUR”

                                      (Porque é no passado que tu encontrarás o sentido do futuro).

                                      Então era um passado que deveria, neste ponto, ser presente,

                                      onde o amor não tinha sinônimo,

                                      ERA AMOR OU NÃO ERA AMOR;

                                      onde o homem tomava o bonde a levar

                                      flores à sua amada,

                                      E AS FLORES NÃO TINHAM SINÔNIMO,

                                      eram flores ou não eram flores,

                                      porque não as aceitávamos de plástico, parecidas, artificais;

                                      e o homem, era homem ou não era homem, pois sabia diferenciar-se em seus postulados ético e morais, dos instintos dos animais, não aculturados, amarrando promessas bem trançadas a fio de bigode.

                                      Não havia ainda a necessidade de educar e vigiar os homens para não destruir a natureza...a curadoria do meio ambiente não existia, porque o homem admirava a natureza e respeitava-a;

                                      SABÍAMOS PRECISAMENTE, ONDE ESTAVA O HOMEM, E ONDE DORMITAVA O ANIMAL!

                                      E se o homem era assim, cristão ou ateu, mas de partido e opinião, também gostava do galanteio e da leveza das tardes, da imensidão clara dos dias ensolarados, e a vida fluia vagarosamente das areias da copacabana carioca aos sertões esturricados e mornos na plácida praça nordestina.

                                      A graça, era blague; o piadista, um blagueur,

                                      contava boutades,

                                      e no Júri, a defesa fazia plaisanteries.

                                      Venerava-se no foro, uma imagem buscada ao barreau francês. Na capital da República, o RIO DE JANEIRO, não se inspiravam os grandes nos americanismos de hoje, mas no francesismo, no galicismo do charme do Palais de Justice, situado na Île de La Cité, no coração parisiense, entre a Conciergerie -onde se prendiam os inimigos, na revolução- e a Sainte Chapelle, lá perto do Boulevard Saint Germain, onde anos depois, Sartre sonharia com o seu existencialismo.

                                      Existência? Justiça? França?

                                      Où se trouve la Justice? Onde fica a justiça, se perguntava? À gauche ou à droite? É a esquerda, ou à direita? E o mundo jurídico não sabia para qual lado pender, quantas vezes confundindo o conceito de justo material, de Stamller, com o justo político de Engels, Marx ou Smith. Comunismo ou liberalismo, socialismo, de qual sorte? E EVANDRO fundava no Rio o Partido Socialista Brasileiro no ano de 1947, e fundava um sonho, um sonho que não se lhe arrefeceu. Agora há pouco, no ano de 1995, em seu depoimento às pesquisadoras da Fundação Getúlio Vargas, afirmou:                      

“FUI MUITO ACUSADO DE SER COMUNISTA, MAS NUNCA FUI. SOU FUNDADOR DO PARTIDO SOCIALISTA, COM JOÃO MANGABEIRA, EM 1947. ACHO QUE O SOCIALISMO NÃO ACABOU. O TEMPO MOSTRARÁ COMO É ILUSÓRIA A EUFORIA NEOLIBERAL QUE ANDA POR AÍ. O SOCIALISMO DEMOCRÁTICO AINDA É A SOLUÇÃO PARA A HUMANIDADE. É A MINHA UTOPIA...”[8]

                                     ...afirma, sem tergiversar, respeitando democraticamente as idéias adversas, ainda no seu sonho de um mundo novo.  

                                     Mas o advogado arrebatado foi posto à prova, na imparcialidade e comedimento exigíveis de um membro do judiciário. Vale o momento, como um instantâneo de sua trajetória de luzes. Foi relativo ao episódio de ter sido alçado à Ministro do Supremo Tribunal Federal em 1963 e, posteriormente, cassado no ano de 1969 pelo AI5. Este episódio retrata o seu perfil, expresso em sua “Arca de Guardados”[9]:

“Ministro do Supremo fazia pouco tempo, ao terminar palestra na Faculdade de Direito de Uberaba, um estudante, de surpresa, perguntou: “Como o senhor se sente na quietude da sua função de juiz, quando até agora esteve numa agitada atividade de advogado criminalista, trabalhando debaixo de permanente tensão emocional, sobretudo nas defesas perante o júri?

A resposta brotou sincera, do fundo do coração.

“AMO MINHA SEGUNDA MULHER, MAS CHORO TODAS AS NOITES A PERDA DA PRIMEIRA”. “VÊDE OS CAPRICHOS DO DESTINO” - Diz ele-. “PERDI, DEPOIS, A SEGUNDA, A MAGISTRATURA, ARRANCARAM-NA DA MINHA VIDA. A PRIMEIRA, A ADVOCACIA, VOLTOU. FOI UM DOCE REENCONTRO. PARADOXALMENTE, PASSEI A CHORAR A PERDA DA SEGUNDA.”

                                     E arremata em grande estilo:

“NÃO HÁ BIGAMIA...NÃO SE PODE CONVIVER FUNCIONALMENTE COM AS DUAS CADA UMA DELAS EXIGE DEDICAÇÃO INTEGRAL... FORAM AMORES DISTINTOS, SEPARADOS. FUI FIEL A AMBAS, A SEU TEMPO”

                                     § §

                                     Por que EVANDRO?

                                              Porque EVANDRO!

                                     Diz a mitologia que há três heróis com esse nome[10]: o primeiro é originário da Lícia e que pereceu na Guerra de Tróia. O segundo é um filho de Príamo, porém, o mais célebre dentre os três é o fundador de Palanteu, no monte Palantino, antes do soerguimento de Roma, por Rômulo. Mas quem se importa com o passado? Só quando o passado é presente, porque atual. Por isso, nem Roma, nem os antigos, mas o filme-realidade de um vencedor nacional, novo, redivivo, a acrescentar um quarto herói após a tríade falada: EVANDRO, O FUNDADOR DE UMA ESCOLA DE CRIMINALISTAS NO BRASIL!

                                      ...O quarto herói, EVANDRO, como o quarto poder pode ser o do Ministério Público Brasileiro, porque um poder moral e verdadeiramente social.


                                              PORTANTO, NEM MONTESQUIEU E NEM MITOLOGIA ANTIGA, SEM TRIPARTIÇÃO DE HERÓIS NA VIDA DA JUSTIÇA, PORQUE EVANDRO É O NOME QUE SE ACRESCE À TRÍADE EXISTENTE, COMO O “PARQUET” QUE SURGE ACRESCENTANDO UM NOVO NOME, AOS PODERES JÁ ESTABELECIDOS. EVANDRO, ENTÃO, É MINISTÉRIO PÚBLICO, PELA PARIDADE QUE EVOCAM AMBAS AS IDÉIAS!

                                      § §                            

                                      Por isso, pronunciemos o nome completo, desde logo, para que não haja equívocos:

                                      EVANDRO CAVALCANTI LINS E SILVA.

                                      Do pré-nome, Evandro, o significado mitológico “o excelente herói ou varão”. NOMEN OMEN, lembraria Norberto Bobbio em seu “Tempo da Memória”: o nome é um presságio!

                                      E que presságio, tiveram os pernambucanos RAUL LINS E SILVA e MARIA DO CARMO UCHOA CAVALCANTI, seus pais?

                                      § §

                                      Falo então de uma vida humana. De um, dos treze filhos de Raul e Maria do Carmo. Falo de uma vida, vivida na forma plural...está certo que conta nossa homenageado com a complacência, a benignidade dos números. Afinal, permitam-me a indiscrição: EVANDRO tem 86 anos de idade. É, pois, por assim dizer, o Brasil todo do século XX, transplantado inteiro, vivo, geográfica e historicamente, sedimentado no corpo e na alma deste piauiense ilustre que ora se retrata.

                                      Piauiense-carioca-brasileiro, não deixando nada a dever, nem em cultura, nem em talento, nem em ousadia ou em vigor, aos maiores criminalistas mundiais: de GENARO MARCIANO, GENUZIO BENTINI, CARRARA a ENRICO FERRI na Itália; em Portugal de ARI DOS SANTOS; ERSKINE na Inglaterra, e o legendário CLARENCE DARROW nos Estados Unidos. Sendo da estatura profissional dos grandes mestres do seu estudado foro francês: um pouco de BERRYER, LACHAUD e HENRI ROBERT, deste último, lembrando a ética; outro tanto de RENÉ FLORIOT [11], que era incisivo na argumentação; de MORO-GIAFFERI [12], pela capacidade de improvisação; TIXIER-VIGNANCOUR [13], pela defesa de suas convicções políticas; e muito da elegância discreta e austera e da inteligência de Mâitre MAURICE GARÇON [14], por sua alta estatura, suas mãos finas e longas, pela utilização do coração na fala, e por sua eloquência, mesmo nos silêncios cortantes. Mas é de JACQUES ISORNI [15] que lhe vêm um paralelo superior, uma dimensão maior: enquanto aquele, foi punido com três anos de suspensão no processo de Petit Clamart [16] e não se abateu, EVANDRO foi banido com os Ministros Vitor Nunes Leal e Hermes Lima, do Supremo Tribunal Federal pelo Ato Institucional nº 5.

                                      Tiraram-lhe a toga, mas não a dignidade, a honradez.

                                      Mais que JACQUES ISORNI suspenso da advocacia, EVANDRO perdeu o poder, mas não abandonou a liça, porque não vivia do poder, pelo poder, e voltou àquela antiga paixão de que falava: a tribuna da defesa nas causas em que acreditava. E anotou esta passagem:

“Supremo Tribunal Federal,ponto de chegada, cume, envaidecedor coroamento   de uma carreira, cátedra maior, cenário político, poder da República. Intérprete da Constituição, para a preservação de seus princípios e para a garantia das liberdades públicas, a Corte foi-lhe fiel e arrostou difíceis transes. Estavam tranquilos os seus juízes, mas sabiam que era “a calma no meio de um furacão”. Não foi suficiente a força moral do Poder Judiciário para deter os ímpetos da intolerância e do despotismo contra as instituições democráticas. O resto é história.

Depois...

A volta, o reencontro com o júri, doce momento...” [17]

                   

                                     §§

                                     BIOGRAFIA?

                                     Esta não é uma biografia autorizada, nem tampouco, uma biografia não autorizada. Não é mesmo uma biografia. É um esboço, um rabiscar de traços, um breve rascunho de quem do moral não faz rascunho, porque é todo ele um único, monolítico, original de que não se faz cópias, conquanto tenha prosélitos e, sobretudo, admiradores.

                                     Se não é biografia, também não se discute de autorização. É que para homenagear não se pede, não se suplica, mas se prova e se comprova.

                                     E os dados biográficos, de fonte fidedigna, sem que o quisesse, e sem que o pedisse, vieram do próprio homenageado, e de Minas Gerais. Explico.

                                     É que foi aqui mesmo,

                                     em uma de minhas passagens,

                                     que nestas paragens,

                                     recém lançado,

                                     no ano transato,

                                     comprei o seu

                                     “Salão dos Passos Perdidos” [18],

                                     donde extraio muito dos dados colhidos.  

                                     §§

                                     Nasceu Evandro em uma casinha alugada no delta do Rio Parnaíba, na ilha de Santa Isabel, no Estado do Piauí, no ano de 1912. O pai fora promotor por breve tempo em Santa Catarina, divisa com o Rio Grande do Sul, depois, Juiz de Direito no interior do Maranhão. A mãe, casada jovem, aos 17 anos, oriunda de uma família de letrados, falava inglês e francês em uma época e em lugares que era um fato extraordinário. Proveio de família ilustre, daquelas lembradas na tinta de Gilberto Freyre, em “Casa Grande & Senzala”.

                                     Da infância, afirma se recordar de ter tido catapora e sarampo [19], bem como impaludismo “com aquela febre terçã, em que a noite a gente tremia”, como disse,

                                     ...o que o fazia,

                                     mesmo doente,

                                     uma criança normal.

                                     Em cores mais vivas, acentua lembrar da vermelhidão de uma surra de palmatória que recebeu de um colega de classe. Relembrando o episódio, diz ter levado um “bolo” -é sua a expressão!-, porque errou uma tabuada. O aluno seguinte, acertou, e ficou com o direito de lhe bater na mão com a palmatória.

                                     Talvez, daí, pudesse se explicar seu justo horror à tortura, à infligência de castigo físico de nosso incorrigível humanista. Talvez daí se pudesse extrair uma bela lição: quem errou nos números, venceu nas ciências humanas, VENCEU NA VIDA, E O BRASIL CANTA SEU NOME; o matemático, colega de classe, transformado em algoz, em verdugo infantil, não reside no total anonimato, porque a alma generosa de Evandro lhe fez registro.

                                     §§                            

                                     Mas da infância, vivida em parte na cidade de São Luis Gonzaga, no Maranhão, a lembrança mais terna, mais doce, é ter tido um carneirinho.... É ter cavalgado um carneirinho...(Lembra-se dele Mestre EVANDRO???)

                                     E uma criança, uma destas que teve um carneirinho, não poderia mesmo, timbrar seu futuro, pastoreando demônios, distribuindo maldades, semeando malquerenças. E quem teve um carneirinho na infância gosta mesmo é da arte, do algodão doce, da poesia, embora conheça os problemas do mundo, os desatinos dos homens. Por isso Evandro, sempre foi, um homem de paz. Um aglutinador de homens, um mestre no ofício de fazer respeito, respeitar o próximo e ser respeitado.                                      Enfim, um homem.

                                     § §

                                     E é nesta infância, que vamos encontrá-lo dando os primeiros passos naquela arte de que seria mestre, a oratória, a tribuna. Sabe-se, que a grande virtude do orador é esse dote de bem ajustar o discurso ao auditório. E vamos encontrá-lo, nos recuados anos de 1922, até teimando à instrução paterna, revelando seu natural talento. Na solenidade de formatura do curso primário, com 10 ou 11 anos, foi escolhido o orador da turma. O pai resolveu colaborar no discurso e colocou uma frase empolada demais para um garoto daquela idade. Começava assim:                                      

                                     “DELEGADO POR ESTA COORTE DE BRAVOS INVENCÍVEIS DO IDEAL...”.

                                     Não queria Evandro dizer a frase, e não disse, realizando assim um discurso mais condinzente com sua idade [20]. Começava assim a purificar a forma, sem prejuízo do conteúdo.

                                     § §

                                     Autodidata, lastimou que seu curso de direito não houvesse sido tão bom.

                                     Diz, por isso, narrando a epopéia, que por força da Revolução Constitucionalista acabou tornando-se “bacharel por decreto” [21] nos idos de 1932. E que decreto! Não por decreto, permito-me a humilde retificação, mas por constituição,força inexorável e prevalente da constituição....físico e mental, geradora de uma intelectualidade por todos reconhecida.

                                     Um bacharel que aprendeu, desde a sua formação, que a imensidão do direito há de transbordar dos textos legais e da dogmática empedernida, para atingir a literatura de Émile Zola, Anatole France, Machado de Assis, Eça de Queiróz, Shakespeare, Euclides da Cunha, Camilo Castelo Branco, Alexandre Herculano, Joaguim Nabuco, Guerra Junqueiro, Castro Alves e muitos outros, todos de sua leitura assídua.

                                     § §

                                     Se ENRICO FERRI foi o grande advogado dos passionais na Itália do começo do século, EVANDRO, no Brasil de hoje pode ser erigido como o mais completo advogado criminalista, destes que mais conhecem dos dramas daqueles que, secundando TOBIAS BARRETO e EVARISTO DE MORAES, “o relógio do coração anda sempre mais atrasado do que o do cérebro”.

                                     E porque homenageamos um grande advogado? Para que tenha vida longa, porque enquanto o adversário é preparado, inteligente, ético e vigoroso, nós, promotores nos aprimoramos, nos preparamos, nos enrijecemos, para um debate leal e altaneiro. É da justa dialética, da oposição dos contrários, que nasce o progresso dos amanhãs.

                                     Deus dê vida longa ao nobre advogado, promotor, ministro e professor, literato e imortal par droit de conquête, por merecimento próprio, porque ele espelha um pouco das ânsias de cada um de nós, um pouco de nós, sobretudo nossas esperanças, porque foi fazendo delas seu evangelho, que longevo chegou aos nossos dias, pensando excelentemente, realizando melhor, e planejando os amanhãs de luz.

                                     ...Porque EVANDRO é espelho, e espelhos não se cobrem, porque são mostrados para a correção de nossas imperfeições.

                                     E, por isso, espelhos não devem se quebrar...

                                     § §

                                     Posso, mesmo recitá-lo,

                                     posso mesmo repetí-lo,

                                     justificando assim minha missão:

                                     “DELEGADO POR ESTA COORTE DE BRAVOS INVENCÍVEIS DO IDEAL...” ofertei-lhe em nome de meus pares, estes pares de palavras, à sua estatura ímpar.

                                     Insistamos nesse afeto, para quem os têm aos mais jovens, à mão cheia. Acostumou-se nosso homenageado, a falar em pé, enquanto os jurados o ouviam sentados, impassíveis. Cambiemos de posições: o festejado tribuno receba agora nosso julgamento sincero que se transmuda em homenagem, mas receba-o assim mesmo, sentado e tranquilo, do alto de sua cátedra. POR QUE NÓS, PROMOTORES DO JÚRI DE TODO O BRASIL, APLAUDIMÔ-LO AGORA, CONVICTAMENTE, EM PÉ!



[1] Discurso em homenagem ao Ministro Evandro Lins e Silva, pronunciado no dia 12.09.98 pelo Professor Edilson Mougenot Bonfim, Presidente do II Congresso Nacional dos Promotores do Júri, em sessão solene ocorrida no encerramento do evento, auditório do Hotel OuroMinas, em Belo Horizonte-MG.

[2] LINS E SILVA, Evandro. “O Salão dos Passos Perdidos. Depoimento ao CPDOC”, Editora Nova Fronteira, 1997, p. 251.

[3] Ob. cit., p. 257.

[4] LINS E SILVA, Evandro. “Arca de Guardados”. Editora Civilização Brasileira, 1995, p. 104.

[5] Vd. CARLOS DE ARAÚJO LIMA, “Os Grandes Processos do Júri”, vol. II, 5a. ed., p. 216/217.

[6] LINS E SILVA, Evandro. “O Salão dos Passos Perdidos.Depoimento ao CPDOC”, Editora Nova Fronteira, 1997, “prefácio”, p. 9.

[7] Ob. cit., p. 71.

[8] Ob. cit., fls. 90.

[9] LINS E SILVA, Evandro. “Arca de Guardados. Vultos e Momentos nos Caminhos da Vida”. Editora Civilização Brasileira, 1995, p. 41.

[10] Vd. JUNITO BRANDÃO. Dicionário Mítico-Etimológico, Editora Vozes, Vol. I, p. 417/418.

[11] RENÉ FLORIOT (1902-1975).

[12] MORO-GIAFFERI (1878-1956).

[13] JEAN-LOUIS TIXIER-VIGNANCOUR (1907-1989).

[14] MAURICE GARÇON (1889-1967).

[15] JACQUES ISORNI (1911-1995).

[16] “HISTOIRE DES AVOCATS EN FRANCE. Des Origines à nous jours”. BERNARD SUR, Dalloz, Paris, 1998, p. 263.

[17] LINS E SILVA, Evandro. “A Defesa Tem a Palavra. O Caso Doca Street e algumas lembranças”. 2a. ed., Editora Aide, RJ, 1984, p. 14.

[18] LINS E SILVA, Evandro. “O Salão dos Passos Perdidos. Depoimento ao CPDOC”, Editora Nova Fronteira, 1997, 525 ps.

[19] Ob. cit., p. 28.

[20] “O Salão dos Passos Perdidos”, fls. 38.

[21] Ob. cit., p. 61 e s.